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Colocado por: Lusowine em Terça, Junho 10, 2008 - 02:46 PM GMT
A primeira impressão é que se chegou ao Douro, mas sem ter o rio. As vinhas das Encostas do Vale Godinho, na freguesia de Olaia (Chícharo), em Torres Novas, preservam uma beleza única, em muito semelhante às encostas de socalcos da região do Douro, ainda que aqui o território seja outro e a distribuição das vinhas não seja em socalcos. Mas é daqui que sai o 2º melhor vinho biológico do país, uma produção da empresa Alveirão – Sociedade Agrícola do Vale Godinho, propriedade de quatro irmãos, filhos da terra e que aqui voltaram para tirar da terra os melhores néctares que ela pode dar, sem no entanto a manchar com químicos e pesticidas. "A agricultura biológica surgiu para mim como uma tomada de consciência quando percebi que já não se podia beber água dos poços que aqui haviam e de onde bebi na minha infância", diz Rogério Vieira, o mais velho dos irmãos e um dos entusiastas do projecto. "Ainda é difícil contaminar outras pessoas com esta ideia da agricultura biológica mas acho que é o caminho do futuro", acrescenta.
O projecto está a dar os primeiros passos, mas já se encontram no mercado quatro vinhos biológicos aqui produzidos, todos eles com o selo de Denominação de Origem Controlada (DOC): o tinto "Encostas do Vale Godinho" de 2005, o Maximo’s tinto de 2005, o Máximo’s branco de 2006 e ainda o Encostas do Vale de Godinho – Colheita Especial. O projecto nasceu do entusiasmo especial dos irmãos Rogério e Luís Vieira que deram nova vida à terra dos pais plantando mais 13 hectares de vinha, em 1998, juntando aos já existentes 6 hectares que existiam.
Esta nova plantação foi cuidadosamente estudada e acompanhada pelas escolhas do enólogo João Melícias e da sua equipa. A própria disposição das vinhas no terreno foi estudada em programas de computador e actualmente toda a vinha tem rega gota-a-gota e um sistema de manutenção das videiras devidamente organizado. Hoje é o jovem enólogo Luís Lopes, recém-licenciado, que dá apoio permanente na vinha, na adega e na parte comercial, em coordenação com a equipa de João Melícias.
A aposta na agricultura biológica foi arriscada mas os irmãos Vieira estão contentes com a escolha. "A vitinicultura biológica é muito limitada a nível de produção porque temos que lidar com as pragas da vinha, o míldio e o oídio, que nos obrigam a andar sempre de olho na vinha. É como alguém que coloca leite ao lume para ferver e tem que estar sempre atento para não entornar", diz Rogério Vieira. "É preciso falar e ouvir as vinhas", acrescenta.
Por ano, a empresa tem capacidade de produção de 50 a 60 mil garrafas.
Os rostos
do projecto
Este projecto tem a assinatura de Rogério Vieira, Luís Vieira, Renato Vieira e João Vieira, quatro irmãos, todos naturais da aldeia do Chícharo, freguesia de Olaia no concelho de Torres Novas, que resolveram investir na produção de uvas biológicas nas propriedades da família e assim desenvolver um produto que, como diz Rogério Vieira, "garante o futuro destas terras como zona de cultivo".
Rogério Vieira é o mais o velho da irmandade e daqui partiu com apenas 13 ou 14 anos para ir estudar em Lisboa, no Colégio dos Salesianos, onde aprendeu o ofício das artes gráficas. Primeiro foi empregado, depois estabeleceu-se e mais tarde, ainda no período difícil antes do 25 de Abril, rumou a França para fugir ao "sufoco" que dizia sentir.
Foi em França que conheceu e abrigou nomes com Zeca Afonso e outros que nessa altura também saíram do país rumo a terras gaulesas. Em Paris, trabalhou quase sempre nas artes gráficas e nunca deixou de estar ligado à cultura, tendo sido fundador do Clube dos Empresários que foi responsável pela criação de uma galeria de arte em que estiveram expostos trabalhos de nomes como Cargaleiro, entre outros. Rogério Vieira foi também sócio-fundador do Jornal O Ribatejo.
40 hectares de verde
e de paisagens únicas
A propriedade cultivada com vinha estende-se por cerca de 20 hectares, dos quais 15 hectares são em mancha contínua. Este localização, no sopé da serra, permite proteger estes terrenos da influência das intempéries atlânticas e criar quase que um micro-clima propício a bons vinhos. Esta é uma terra conhecida por ter temperaturas que chegam a rondar os 45 ºC, ideais para "puxar os açúcares" das uvas. Por estes terrenos também já foram cultivados grandes figueirais que em tempos deram fama e riqueza à terra e ao concelho de Torres Novas. Também por cá se plantou vinha, mas os últimos registos remontam ao tempo dos avós dos actuais proprietários. A propriedade estende-se por 40 hectares onde também existem pinheiros, eucaliptos e outras espécies árboreas.
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